| MENSAGEM
DO PAPA PARA AS VOCAÇÕES
1. «Jesus foi conduzido ao deserto, pelo Espírito» (Mt 4,1) Toda a vida de Jesus decorre sob a acção do Espírito Santo; no inicio é Ele que envolve a Virgem Maria no mistério inefável da Encarnação; no rio Jordão, ainda é Ele que dá testemunho do Filho predilecto do Pai e o conduz ao deserto. Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus declara pessoalmente: «o Espírito do Senhor repousa sobre Mim» (Lc 4,18). Ele promete esse mesmo Espírito aos discípulos como garantia perene da sua presença no meio deles. No alto da cruz, entrega-o de volta ao Pai (cf. Jo 19,30) selando assim a madrugada de Páscoa da Nova Aliança. Por fim, no dia de Pentecostes, derrama-O sobre a comunidade primitiva, para consolidá-la na fé e lançá-la nas estradas do mundo. Desde então, a Igreja, Corpo místico de Cristo, percorre os caminhos do tempo conduzida pelo vento do mesmo Espírito, iluminando a História com o fogo ardente da palavra de Deus, purificando o coração e a vida dos homens com- os rios de água viva que brotam de seu seio (cf. Jo 7,37-39). Realiza-se dessa forma a sua vocação a ser «povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (São Cipriano, De Domínica Oratione, 23), e «depositária do mistério do Espírito Santo, que consagra para a missão aqueles que o Pai chama mediante o seu Filho Jesus Cristo» (Pastores dabo vobis, 35). 2. « Vós sois uma cama de Cristo.., escrita com o Espírito do Deus vivo...sobre as tábuas de carne dos vossos corações» (2Cor 3,3) Com o Baptismo, cada cristão começa a viver na igreja sob «a lei do Espírito, que dá vida em Cristo Jesus» (Rm 8, 2) e, sob a condução do Espírito, entra em diálogo com Deus e os irmãos, e reconhece a extraordinária grandeza da própria vocação . A celebração deste Dia é uma ocasião favorável para anunciar que o Espírito Santo de Deus escreve, no coração e na vida de cada baptizado, um projecto de amor e de graça, o único que pode dar pleno sentido à existência, abrindo a estrada para a liberdade dos filhos de Deus e permitindo a cada homem oferecer a própria contribuição, pessoal e insubstituível, para o progresso da humanidade no caminho da justiça e da verdade. 3. O Espírito e a Esposa dizem: Vem?» (Ap 22,17) Essas palavras do Apocalipse levam-nos a considerar a relação fecunda entre o Espírito Santo e a Igreja da qual brotam as diversas vocações, e a fazer memória daquele «Pentecostes» em que cada humanidade cristã é gerada na unidade, formada pelo fogo do Espírito na multiplicidade dos dons e enviada a levar a Boa Nova a todo o coração que espera por ela. De facto, se é verdade que o chamamento tem sempre a sua fonte em Deus, é igualmente verdade que o diálogo vocacional se dá na Igreja e por meio da Igreja. A força do Espírito que conduziu Pedro à casa do centurião Cornélio, para levar-lhe a salvação (cf. Act lo,19), e que disse: «Separem Barnabé e Saulo, para a obra a que os chamei» (Act 13,2), não se esgotou. O Evangelho continua a difundir-se «não somente por meio da palavra, mas também com poder e com o Espírito Santo» (1 Ts 1,5). O Espírito Santo e a igreja, repetem também aos homens e às mulheres do nosso tempo o seu «Vem !». Vem ao encontro do Verbo Incarnado, que quer tomar-te participante da sua própria vida! Vem acolher o chamamento de Deus, vencendo hesitações e adiamentos! Vem e descobre a história de amor que Deus teceu com a humanidade: Ele quer realizá-la também contigo. Vem e saboreia a alegria do perdão acolhido e dado. O muro de separação que existia entre Deus e o homem, e entre os mesmos seres humanos, foi demolido. As culpas foram perdoadas, o banquete da vida está preparado para todos. Felizes aqueles que, atraídos pela força da Palavra e formados pelos Sacramentos, pronunciam o seu «Estou aqui! ».Eles encaminha-se pela via da total e radical pertença a Deus, fortalecidos pela esperança que não decepciona, «porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). 4. «Há diversidade de carisma, mas um só é o Espirito» (1Cor 12,4) Na vida nova que brota do Baptismo e se desenvolve mediante a Palavra e os Sacramentos, alimentam-se os carismas, os ministérios e as várias formas de vida consagrada. Quando a comunidade cristã vive em atitude de plena fidelidade ao seu Senhor, é possível gerar novas vocações no Espírito. Isso supõe um intenso clima de fé e de oração, um generoso testemunho de comunhão e de estima dos múltiplos dons do Espírito, urna paixão missionária que, vencendo os fáceis e ilusórios egoísmos, leva ao dom total de si, pelo Reino de Deus. Cada Igreja particular é chamada ao compromisso de sustentar o desenvolvimento dos dons e dos carismas que o Senhor suscita no coração dos fiéis. Neste Dia no entanto, a nossa atenção volta-se, de modo especial, para as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada para o papel fundamental que elas têm na vida da Igreja e no cumprimento da sua missão. Oferecendo-se ao Pai na cruz, Jesus fez de todos os seus discípulos «um reino de sacerdotes e uma nação Santa»» (Êx19,6), e constituiu-os como «um edifício espiritual », «um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus» (1 Pd 1,5). Ao serviço desse sacerdócio universal da Nova Aliança, Ele chamou os Doze, para «estarem com Ele, e para os enviar a pregar, com o poder de expulsar os demónios» (Mc 3,14-15). Hoje Cristo continua a sua obra de salvação, por meio dos bispos e dos sacerdotes que, na Igreja e para a Igreja, «são uma representação sacramental de Jesus Cristo Cabeça e Pastor, proclamam a sua palavra, repetem os seus gestos de perdão e oferta de salvação» (Pastores dabo vobis, 15). A vida consagrada situa-se no próprio coração da igreja como elemento decisivo para a sua missão, já que exprime a íntima natureza da vocação cristã e a tensão de toda a Igreja-Esposa para a união com o «único» Esposo. Essas vocações, necessárias em todos os tempos, hoje são-no ainda mais, num mundo marcado por grandes contradições e tomado pela tentação de afastar Deus das escolhas fundamentais da vida. Faço votos de que a celebração anual do Dia Mundial de oração pelas Vocações suscite no coração dos fiéis uma oração mais intensa para obter novas vocações para o sacerdócio e a vida consagrada, e desperte a responsabilidade de todos, especialmente dos pais e dos educadores da fé, no serviço às vocações. 5. Dai as razões da esperança que existe em vós (cf. 1Pd 3,13) Em primeiro lugar, convido-vos, caríssimos bispos, e convosco os sacerdotes, os diáconos e os membros dos Institutos de vida consagrada, a darem incansavelmente testemunho da plenitude espiritual e humana que leva cada um de vós a fazer-se «tudo para todos», para que o amor de Cristo possa atingir o maior número possível de pessoas Estabelecei relações apropriadas com todos os componentes da sociedade; valorizai as vocações ministeriais e carismáticas que o Espírito suscita nas vossas comunidades, facilitando a complementaridade e a colaboração; dai o vosso contributo, para que cada qual cresça na direcção da plena maturidade cristã. Que, olhando para vós, alegres servidores do Evangelho, os jovens e as jovens possam perceber o fascínio de uma existência inteiramente dedicada a Cristo, no ministério ordenado ou na escolha radical da vida consagrada. Vós, esposos cristãos, estai prontos a dar as razões da profunda realidade da vossa vocação matrimonial: a harmonia em casa, o espírito de fé e de oração, o exercício das virtudes cristãs, a abertura para os outros, sobretudo os pobres, a participação na vida eclesial, a serena fortaleza em enfrentar as dificuldades quotidianas, constituem o terreno favorável para a maturação vocacional dos filhos. E vós, professores, catequistas, animadores pastorais e todos vós que desempenhais papéis educativos, no vosso serviço importante e difícil, senti-vos cooperadores do Espírito. Ajudai a juventude a libertar o coração e a mente de tudo o que lhe impede a caminhada; estimulai-os a dar o melhor de si, numa constante tensão de crescimento humano e cristão; com a luz e a força da palavra evangélica formal neles os sentimentos mais profundos de modo que, se forem chamados, possam realizar a sua vocação para o bem da Igreja e do mundo. Neste ano, colocando no centro o Espírito Santo, a caminhada de preparação para o Jubileu do Ano 2000 convida-nos a dar especial atenção ao sacramento do Crisma. Por isso, desejo agora reservar uma palavra específica para aqueles que, nesse tempo recebem tal sacramento. Caríssimos, voltando-se para vós, durante o rito da Confirmação, o bispo diz: «o Espírito Santo, que ides receber, vai marcar- vos com um sinal que vos tomará mais conformes e mais perfeitamente membros da Sua Igreja». Portanto, começa para vós um tempo privilegiado, durante o qual sois convidados a questionar-vos e a questionar a comunidade cristã da qual vos tomastes membros vivos, sobre o sentido pleno a dar à vossa existência. E um tempo de discernimento e de escolha vocacional. Escutai o convite de Jesus: «Vinde e vede! ». Dai o vosso testemunho a Cristo na Comunidade eclesial, segundo o projecto inteiramente pessoal e irrepetível que Deus tem para vós. JOAO PAULOII |