A IGREJA QUE NÓS SOMOS
Este mês de Junho é rico em festividades: os santos populares, o
Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e o seu Sagrado Coração. No percurso da sua Paixão
e preparando-se para entregar a vida ao Pai por nós, Jesus instituiu a Eucaristia como
memorial do Verbo que um dia se fez Carne e habitou em nós. "Quem come a minha carne
e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele" (Jo 6,56). Sem este Corpo e sem
este Sangue transubstanciados do Pão e do Vinho, mistério da nossa fé, ainda
estaríamos a atravessar o deserto das nossas vidas à procura do caminho, da verdade e da
vida A Eucaristia realiza a nossa incorporação no Senhor ressuscitado.
Comungar o Corpo e Sangue de Cristo vincula-nos ao amor, a única forma de transformar a
humanidade. A Carne e o Sangue de Cristo são a verdadeira comida e a verdadeira bebida
que nos alimenta de amor, purifica a nossa consciência, retempera as nossas forças e nos
livra de um perigo mortal: o egoísmo. Por isso, um verdadeiro cristão deve sentir-se
impelido voluntariamente a ir à missa, sentir essa necessidade de matar a fome e de
saciar a sede, com coração e fé. Escutar a palavra de Deus, nas leituras, no evangelho
e na homilia, é inseparável da comunhão do Corpo e Sangue
de Cristo, pois em ambas o Senhor alimenta-nos, une-nos a Si e a todos os outros convivas.
Uma coisa sem a outra não leva a uma participação efectiva e perfeita na missa.
Em 1765, Clemente XIII aprovou a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, em 1856, Pio IX
inseriu-a no calendário da Igreja Universal e, em 1900, Leão XIII, consagrou o mundo ao
Coração de Jesus. Este culto lembra-nos, de um lado, o amor com que Deus nos amou
mediante Jesus e, de outro lado, que nos devemos amar uns aos outros do mesmo modo e com a
mesma intensidade como Ele nos amou. E o amor está no coração dos homens, órgão onde
em sentido bíblico reside a sensibilidade moral, a consciência, a coragem, o ânimo, o
valor, a memória, a inteligência, o pensamento, a decisão e a acção, a sabedoria e
discernimento, o amor e a piedade. O Sagrado
Coração de Jesus é a representação mais viva e feliz do Ressuscitado pelo qual
recebemos a alegria de viver em união com os outros, num esforço contínuo de amor, de
serviço, de doação e de generosidade. "Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu
próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e rezai
por aqueles que vos perseguem" (Mt 5, 43-44). É um amor "de caridade, de
benevolência, de bem querer; o amor capaz de se
dar e de perseverar na dádiva sem nada esperar em troca" (Ariel Alvarez Valdés, em
Que sabemos da Bíblia, IV, Ed. S. Paulo, pag. 77) É um amor teológico, total, não se
confundindo com o afecto. Não somos obrigados a sentir afecto aos que nos odeiam e nos
maltratam. Fazer o bem é vencer o mal. Amar os nossos inimigos é dar-lhes a mão quando
estiverem em apuros. "Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede,
dá-lhe de beber. Desse modo farás o outro corar de vergonha" (Paulo, Rm. 12,20). Um
cristão consciente recebe gratuitamente o amor de Deus e deve restituir-lho mediante os
seus irmãos, vingando-se dos seus inimigos fazendo-lhes o bem.
Carlos Mateus |