CONVITE À ORAÇÃO

Como vivemos a eucaristia? Após ter meditado um pouco no tema e tendo por base os ensinamentos ministrados resolvi escrever umas palavras sobre a Eucaristia.  Desde já apresento as minhas desculpas pela análise superficial e simplista como este assunto vai ser tratado. Vou tentar dar uma ideia de como vejo o comportamento dos católicos perante este sacramento.
A manifestação que em Portugal reune mais gente aos domingos é o futebol. Todos nós pensamos que é verdadeira esta afirmação, mas não é. A actividade que apupa mais pessoas é a Eucaristia. São milhares que se reunem nas nossas igrejas, quer nas grandes cidades ou mesmo nas aldeias, isto, para não falar dos doentes que não se podem deslocar e assistem pela rádio ou televisão. A missa dominical congrega pessoas de todas as condições sociais, cada qual tem o seu estilo de vida: o seu trabalho, a sua situação económica, as suas relações de amizade, ou talvez a solidão. Cada qual é diferente; cada qual é como é. Estão adultos ao lado de crianças, e de jovens; estão patrões ao lado de trabalhadores ou de desempregados que animados pelo mesmo espírito de fé escutam a leitura dos livros sagrados, comungam do mesmo pão e do mesmo vinho e são convidados a viver o que celebram. Na verdade esta actividade que apupa um mundo heterogéneo de crentes obriga-nos minimamente a reflectir: " Que é afinal a Eucaristia? E como fazer para que todas essas pessoas formem uma assembleia fraterna, disponível para escutar a Palavra, e celebrar verdadeiramente a Eucaristia ? " A Eucaristia é a presença de Cristo no meio de nós. O Senhor Ressuscitado congrega incessantemente os cristãos como membros do seu corpo. E a força que nos dá é a Ressurreição, por isso a Eucaristia é o sacramento da Ressurreição. O Concílio Vaticano II, ao publicar como seu primeiro documento o « Sacrosantum Concilium» avançou numa linha de renovação à luz da tradição.
Como para os primeiros cristãos, a Eucaristia terá de ser hoje um momento forte de encontro com Cristo vivo. Será que nós católicos sentimos e vivemos intensamente este encontro com Cristo Ressuscitado ? As pessoas vão à Eucaristia mas pouco participam. Na extremidade da Igreja a assembleia não ouve o celebrante recitar os textos, estão dispersos e pouco atentos. Muitas pessoas afirmam, e pensam: Que utilidade haverá em ir assistir à missa ? Não posso rezar em casa ? Evidentemente que não é obrigatório. Ninguém se deve sentir obrigado assistir aos domingos à missa. Podemos perfeitamente rezar em qualquer parte; retirando-nos para o nosso quarto, na rua, no autocarro... Mas eu pergunto : Somos ou não somos católicos ? Acreditamos ou não em Cristo Ressuscitado ? Se a nossa resposta é afirmativa devemos sentir necessidade da sua presença e na Eucaristia encontramos a Sua "presença real".
Sem a presença de Cristo, a concentração dos Cristãos seria apenas um grupo de homens com as mesmas ideias. Ora, é mais do que isso, é a adesão ao Cristo Ressuscitado.   Outro assunto que me sensibiliza é este: Eu vou à missa todos os domingos mas não vou à comunhão. Sinceramente permitam que expresse a minha opinião: Nesta situação as pessoas não participam não compreenderam o sacramento da Eucaristia, senão vejamos: A preparação para a comunhão começa por escutar  a Palavra de Deus (as leituras, o Evangelho, a homília) e tem especial relevo na recitação do Pai nosso, isto é, a oração que o próprio Jesus nos ensinou. E o Pai nosso diz.."...o pão nosso de cada dia nos dai hoje..." Estamos recitando num contexto eucarístico, que é o pão espiritual. No momento da comunhão o celebrante apresenta o Corpo proferindo as seguintes palavras: « Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo !» E os fieis respondem : « Senhor, não sou digno..» O Senhor Jesus disse: « Tomai e comei ! Tomai e bebei ! » E se nós não comungarmos não fazemos parte de um povo que caminha ao encontro do seu Senhor e não estamos a cumprir os seus ensinamentos.  Só mais este assunto: Será que sabemos exteriormente comungar ? Tenho assistido na altura da comunhão a pessoas que se apresentam duma forma pouco conveniente, direi mesmo provocatória e outras que quando recebem a hóstia consagrada estendem os dedos não colocando as mãos em posição correcta. Sobre este tema gostaria de citar um bispo que pelo ano 350 dava este conselho aos cristãos: « Ao ires comungar, não avances de braços caídos. Poisa a mão esquerda sobre a direita e com a mão direita leva-se o pão eucarístico à boca, diante do ministro da comunhão ». 
Sobre a Liturgia da palavra chego a interrogar-me se estaremos conscientes de estarmos a escutá-la interpretando-a com a linguagem e os tempos de hoje. Quando a comunidade cristã participa na eucaristia, vê entre as mãos do celebrante, no momento do ofertório, o pão "fruto da terra e do trabalho do homem" e consegue viver uma lição de justiça social que deve marcar a nossa vida. Como pensar que o pão surge, aos nossos olhos, como fruto do dinheiro e que há milhões e milhões de pessoas a quem falta o pão ? Só procurando viver praticando e agindo de acordo com as palavras transmitidas na Eucaristia estaremos a dar continuidade ao ensinamento do Senhor, senão tomamo-nos escravos da palavra e nada fazemos para bem do próximo. Durante toda a celebração da Eucaristia, ouvimos dizer que somos irmãos; dirigimo-nos ao mesmo e único Pai; fazemos menção de nos pormos em volta duma mesa; comemos o mesmo pão da vida, e contudo, depois da missa, cada um tem a sua família, os seus cuidados, os seus problemas, e os assim chamados irmãos mantêm-se como adversários e inimigos. Como não descobrir, com os olhos de Cristo, que, nos nossos dias, não basta dar esmolas e pedir generosidade para os que têm fome ? Hoje, a esmola é trabalhar para o estabelecimento da justiça social. Se lermos a história dos nossos antepassados na fé encontraremos este prodígio vivo: a multidão dos crentes tinham um só coração e uma só alma. Desta forma quando participamos numa Eucaristia tenhamos consciência que a Igreja não existe para que fiquemos divididos dentro dela, mas sim para que nela se extingam as nossas divisões. É necessário que todos estejamos unidos formando um só corpo. Temos o mesmo baptismo, uma mesma mesa, uma mesma fonte e também um único Pai.

João Vieira

 

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