ALGUMAS HISTÓRIAS DA CONGREGAÇÃO XXXIV






     




    PARÁBOLA DA CULTURA

    Sairam os companheiros de Jesus a anunciar a Boa-Nova. Percorreram a terra inteira, levando a sua mensagem a todos os povos e nações. Por toda a parte repetiam a Palavra que haviam recebido, falando na sua própria lingua, exemplificando com os seus costumes, aconselhando com a Boa-Nova e fizeram sua essa linguagem, costumes, gestos e trajes.

    Mas, com o andar dos tempos e com o crescer e multiplicar dos povos, essa Mensagem começou a tornar-se , para muitos, exterior e estranha à sua própria vida. Os companheiros de Jesus perdiam a condução das gentes e eram empurrados para as bermas dos caminhos. Um anjo desceu, então, sobre eles e disse-lhe: "Não queirais ser guias dos povos, mas antes seus companheiros de viagem . Vivei a vida de cada povo, em diálogo com todos os outros. Comei da sua comida , vesti os seus gostos, calçai os seus destinos, falai a sua linguagem, cantai os seus cantos celebrai as suas festas e fazei vossos os seus anseios. O Senhor celebra convosco um pacto : se fizerdes assim , mas guardares pura a Boa-Nova no vosso coração, se não adorardes deuses pagãos nem oferecerdes incenso aos seus ídolo, o Espirito do Senhor descerá sobre os lábios e sobre as vossas mãos. E a Glória do Senhor se manifestará , através de vós, a todos os povos".

    Os companheiros de Jesus cumpriam a palavra do Anjo . Dispersaram-se por entre os povos, a viver a vida de cada um, em diálo go com todos os outros. Comeram da sua comida , vestiram os seus gostos, calçaram os seus destinos, falaram a sua linguagem, cantaram os seus cantos , celebraram as festas, fizeram próprios os seus anseios, mas guardaram pura a Boa-Nova nos seus corações. E então, a Glória do Senhor desceu sobre eles e manifestou-se através da sua palavra, dos seus cantos, das suas mão , dos seus gestos dos seus anseios e dos seus destinos. Era tudo, enriquecido de outro colorido. No horizonte, despontava o sol do terceiro. E os companheiros de Jesus exclamram:Amen, aleluia!

    Luis Archer, SJ.

    SER SOCIAL

    Virando-se depois para o interior, foi encontrar pessoas que viviam dos escassos recursos da agricultura, sujeito aos imprevisíveis contratempos do clima de que dependiam as suas colheitas. Esta gente simples trabalhava em geral terras arrendadas a grandes proprietários, vivendo em cada dia a insegurança do seu sustento.

    Foi ver doentes aos hospitais e presos às cadeias, que se encontravam em condições por vezes desumanizantes, devido à pobreza das infraestruturas. Estes eram pobres porque estavam sós e sofriam sós, embora lhes fosse dado algum apoio moral e companhia, através de pessoas que os visitavam.

    O nosso personagem, perturbado com o que ia descobrindo, foi finalmente visitar um campo de férias com crianças de famílias pobres, cuja educação era escassa, com fracos hábitos de higiene e um conhecimento da escola apenas de ouvirem falar. Estes jovens, passavam a maior parte do seu tempo nas ruas, procurando entreter-se como podiam. Eram apoiados por monitores que os ajudavam a olhar de forma diferente para o mundo, para os outros e para si próprios.

    Regressado a casa, sentia-se mal e de certo modo responsável por tudo o que tinha visto e vivido nos últimos tempos. Sabia, no entanto, que muito bem estava a ser feito por essa gente. Ao retomar o seu trabalho e vida de negócios, o nosso transformado administrador reflectia sobre a sua nova experiência, chegando à conclusão de que não era sua missão mudar de vida, nem era necessário viver directamente ao lado destes pobres, os quais agora conhecia pessoalmente. Tinha antes a obrigação de defender os direitos deles na sua empresa, nos seus contactos sociais, tê-los presentes nas suas conversas, beneficiá-los nos seus projectos imobiliários. Em suma, sentia que podia continuar a ser quem era e a fazer o que fazia, guardando um lugar especial no seu interior para os seus novos amigos, de quem ninguém mais queria saber. Talvez um dia pudesse mesmo servi-los com os seus haveres, conhecimentos, disponibilidade, vivendo ao seu lado. Mas urgia de momento continuar a vida que tinha e sendo quem era, apenas com esta nova atitude em relação aos que mais sofrem.

    Lourenço Eiró, SJ


    COMUNICAÇÃO UMA NOVA CULTURA

    Era uma vez um Elefante, chefe de uma manada tão grande que se perdia de vista, Todos o consideravam como um pedaço de gente instruída e culta. Era um leitor viciado que devorava bibliotecas. Mesmo assim, apesar da provecta idade, não precisava de óculos. A sua esperteza tinha o feito inventar um método revoluçionário de leitura. Usava a tromba que, à maneira de um "scanner", absorvia inteligentemente as, letras. Assim, este grande senhor de toda a extensâo do seu nariz, em poucos segundos lia uma página, sem cansar a vista. Tinha apenas o inconveniente de que, quando espirrava a meio de uma leitura, perdia as últimas 30 ou 40 páginas que lera. Gozava de grande prestígio, a ponto de o tratarem geralmente por "Dom Guteniberg", com o que, se sentia muito honrado,

    Apesar de tudo isto, Dom Gutemberg andava deprimido, com as orelhas murchas, o que num elefante significa uma grande de depressão... É que a nova geração de elefante (e a rebeldia juvenil estava a ultrapassar os limites!), andava a escapar-lhe ao seu pulso de ferro, introduzindo novos métodos, tecnologias e, sobretudo, uma nova mentalidade que passava das marcas . O auge da crise de desencontro cultural escalou quando um grupo de elefantes de várias idades fundaram um clube com o nome de "Fórum Aldeia Global - O Novo Elefante audiovisual"... Um título e um subtítlilo de aberta provocação. Era uma declaração de guerra com luvas brancas.

    Dom Guternberg era uma máquina de fortaleza e preserverança, de vontade indómita, resistente como os emboneiros das savanas. Para não perder o comboio da história, ensaiou e executou variadas operações de charme, tentando, desespreradamente, recuperar o prestígio e a influência que estava a perder a olhos vistos.

    Passou a pentear-se ao gosto da nova geração que gastava quilos de pasta dentífrica para manter reluzentes os seus dentes de luxo, quais artísticas peças de museu ambulante... Mas mais difícil era pentear as ideias e lavar a mentalidade . E esta dificuldade pesava-lhe mais do que as suas generosas toneladas de carne e osso.

    Debatendo-se entre insónias e angústias, Dom Gutemberg, que tinha uma inteligência proporcional à sua menória de elefante, conjecturou um plano revolucionário: convocaria uma assembléia geral ("cortes gerais" vieram a chamar-lhe, os de esquerda). Aí haveria total liberdade de expressão, pois estava seguro que os seus argumentos levariam a melhor sobre a minoria prafrentista do seu clã elefantino.

    A Assembleia Geral da Real Manada realizou-se à beira rio, num anfiteatro natural com abundante capim e bastas árvores. Representando a cultura tradicional e a manutenção do "status quo", o Elefante Chefe, bem escovado, luzidio e engravatado de altas condecorações, discursou longamente, citando com sagacidade magistral autores clássicos e modernos, com tromba e sem ela. Depois de quase duas horas, sempre pôs ponto final. Os aplausos seguiram-se vibrantes, embora certos observadores ficaram duvidar se tanto bater de palmas era em louvor das ideias defendidas ou de regozijo por, ter acabado o interminável discurso.

    Da parte da tarde, pensando a organização que o tempo de sesta ia provocar sono e enfado comum, deu a palavra ao "Fórum dos Doutores em Sonho" (como lhe chamava ironicamente), a fim de que expusessem as suas ideias, se é que tinham alguma. Com espanto geral, ninguém subiu à tribuna para discursar.Os risos passeavam-se pelas trombas da velha guarda vitoriosa por falta de porta-voz que fizesse um discurso convincente de lógica insofismável. Eis senão quando um grupo de elefantes entra em palco: retira a estante dos discursos e coloca no centro uma velha máquina impressora com um computador e uma parabólica em cima. Por detrás deste quadro, dois elefantes passeavam um dístico que unia as suas trombas, com a scguinte legenda "Há que passar de Museu a Musa!", Outro par, formado por uma veneranda elefanta e sua criaturazinha recém-nascida, ostentava um cartaz. "Dá futuro ao passado!", Num segundo quadro, apareciam quatro elefantes, de várias raças e cores, numa vídeo-conferência, cada um falando do seu continente, usando para tal as suas incomensoráveis orelhas, dispostas em forma de antena parabólica. Como legenda apareciam as palavras de ordem:"Faz-te cidadão do universo. Tira o passaporte da comunicação global!"...

    Vários outros "sketches" disseram muito com poucas palavras e muita imagem. Em 20 minutos ficou feito o discurso dos simbolos, em contraposição a duas horas de, enfadonho palavreado.

    Em abono da verdade, se deve dizer que muitos elefantes, com acentuada trombas, abandonaram assembleia em sinal ostensivo de protesto. Mas tem que se confessar também que muitos se fizeram sócios do "Fórum Aldeia Global -O Novo Elefante Audíovísual". Com espanto geral, o próprio Dom Gutemberg se inscreveu numa Escola de Condução das estradas informáticas e iniciou o curso de formação permanente sobre "Como dar cartas no correio internético". os colegas rebaptizaram o elefante chefe com o nome de Mr. Bill Gates. E o certo é que por travesseiro passou a usar um computador portátil multi-funções.


    Manuel Morujão, SJ.



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