PARÁBOLA DA CULTURA
Sairam os companheiros de Jesus a anunciar a Boa-Nova. Percorreram
a terra inteira, levando a sua mensagem a todos os povos e nações.
Por toda a parte repetiam a Palavra que haviam recebido, falando
na sua própria lingua, exemplificando com os seus costumes,
aconselhando com a Boa-Nova e fizeram sua essa linguagem, costumes,
gestos e trajes.
Mas, com o andar dos tempos e com o crescer e multiplicar dos
povos, essa Mensagem começou a tornar-se , para muitos,
exterior e estranha à sua própria vida. Os companheiros
de Jesus perdiam a condução das gentes e
eram empurrados para as bermas dos caminhos. Um anjo desceu,
então, sobre eles e disse-lhe: "Não queirais
ser guias dos povos, mas antes seus companheiros de viagem
. Vivei a vida de cada povo, em diálogo com todos os
outros. Comei da sua comida , vesti os seus gostos, calçai
os seus destinos, falai a sua linguagem, cantai os seus cantos
celebrai as suas festas e fazei vossos os seus anseios. O
Senhor celebra convosco um pacto : se fizerdes assim , mas
guardares pura a Boa-Nova no vosso coração, se não
adorardes deuses pagãos nem oferecerdes incenso aos
seus ídolo, o Espirito do Senhor descerá sobre
os lábios e sobre as vossas mãos. E a Glória
do Senhor se manifestará , através de vós, a todos
os povos".
Os companheiros de Jesus cumpriam a palavra do Anjo . Dispersaram-se
por entre os povos, a viver a vida de cada um, em diálo
go com todos os outros. Comeram da sua comida , vestiram os
seus gostos, calçaram os seus destinos, falaram a sua
linguagem, cantaram os seus cantos , celebraram as festas,
fizeram próprios os seus anseios, mas guardaram pura a
Boa-Nova nos seus corações. E então, a
Glória do Senhor desceu sobre eles e manifestou-se
através da sua palavra, dos seus cantos, das suas mão
, dos seus gestos dos seus anseios e dos seus destinos. Era tudo,
enriquecido de outro colorido. No horizonte, despontava o
sol do terceiro. E os companheiros de Jesus exclamram:Amen, aleluia!
Luis Archer, SJ.
SER SOCIAL
Virando-se depois para o interior, foi encontrar pessoas que viviam
dos escassos recursos da agricultura, sujeito aos imprevisíveis
contratempos do clima de que dependiam as suas colheitas. Esta
gente simples trabalhava em geral terras arrendadas a grandes
proprietários, vivendo em cada dia a insegurança
do seu sustento.
Foi ver doentes aos hospitais e presos às cadeias,
que se encontravam em condições por vezes desumanizantes,
devido à pobreza das infraestruturas. Estes eram pobres
porque estavam sós e sofriam sós, embora lhes fosse
dado algum apoio moral e companhia, através de pessoas
que os visitavam.
O nosso personagem, perturbado com o que ia descobrindo,
foi finalmente visitar um campo de férias com crianças
de famílias pobres, cuja educação era escassa,
com fracos hábitos de higiene e um conhecimento da escola
apenas de ouvirem falar. Estes jovens, passavam a maior parte
do seu tempo nas ruas, procurando entreter-se como podiam. Eram
apoiados por monitores que os ajudavam a olhar de forma diferente
para o mundo, para os outros e para si próprios.
Regressado a casa, sentia-se mal e de certo modo responsável
por tudo o que tinha visto e vivido nos últimos tempos.
Sabia, no entanto, que muito bem estava a ser feito por essa gente.
Ao retomar o seu trabalho e vida de negócios,
o nosso transformado administrador reflectia sobre a sua nova
experiência, chegando à conclusão de que não
era sua missão mudar de vida, nem era necessário
viver directamente ao lado destes pobres, os quais agora conhecia
pessoalmente. Tinha antes a obrigação de defender
os direitos deles na sua empresa, nos seus contactos sociais,
tê-los presentes nas suas conversas, beneficiá-los
nos seus projectos imobiliários. Em suma, sentia que podia
continuar a ser quem era e a fazer o que fazia, guardando um lugar
especial no seu interior para os seus novos amigos, de quem ninguém
mais queria saber. Talvez um dia pudesse mesmo servi-los com os
seus haveres, conhecimentos, disponibilidade, vivendo ao seu lado.
Mas urgia de momento continuar a vida que tinha e sendo quem era,
apenas com esta nova atitude em relação aos que
mais sofrem.
Lourenço Eiró, SJ
COMUNICAÇÃO UMA NOVA CULTURA
Era uma vez um Elefante, chefe de uma manada tão grande
que se perdia de vista, Todos o consideravam como um pedaço
de gente instruída e culta. Era um leitor viciado que
devorava bibliotecas. Mesmo assim, apesar da provecta idade, não
precisava de óculos. A sua esperteza tinha o feito inventar
um método revoluçionário de leitura. Usava
a tromba que, à maneira de um "scanner", absorvia
inteligentemente as, letras. Assim, este grande senhor de toda
a extensâo do seu nariz, em poucos segundos lia uma página,
sem cansar a vista. Tinha apenas o inconveniente de que, quando
espirrava a meio de uma leitura, perdia as últimas 30 ou 40 páginas
que lera. Gozava de grande prestígio, a ponto de o tratarem
geralmente por "Dom Guteniberg", com o que, se sentia
muito honrado,
Apesar de tudo isto, Dom Gutemberg andava deprimido, com as
orelhas murchas, o que num elefante significa uma grande de depressão...
É que a nova geração de elefante (e a rebeldia
juvenil estava a ultrapassar os limites!), andava a escapar-lhe
ao seu pulso de ferro, introduzindo novos métodos, tecnologias
e, sobretudo, uma nova mentalidade que passava das marcas . O
auge da crise de desencontro cultural escalou quando um grupo
de elefantes de várias idades fundaram um clube com o nome
de "Fórum Aldeia Global - O Novo Elefante audiovisual"...
Um título e um subtítlilo de aberta provocação.
Era uma declaração de guerra com luvas brancas.
Dom Guternberg era uma máquina de fortaleza e preserverança,
de vontade indómita, resistente como os emboneiros das
savanas. Para não perder o comboio da história,
ensaiou e executou variadas operações de charme,
tentando, desespreradamente, recuperar o prestígio e a
influência que estava a perder a olhos vistos.
Passou a pentear-se ao gosto da nova geração que
gastava quilos de pasta dentífrica para manter reluzentes
os seus dentes de luxo, quais artísticas peças de
museu ambulante... Mas mais difícil era pentear as ideias
e lavar a mentalidade . E esta dificuldade pesava-lhe mais
do que as suas generosas toneladas de carne e osso.
Debatendo-se entre insónias e angústias, Dom
Gutemberg, que tinha uma inteligência proporcional à
sua menória de elefante, conjecturou um plano revolucionário:
convocaria uma assembléia geral ("cortes gerais"
vieram a chamar-lhe, os de esquerda). Aí haveria total
liberdade de expressão, pois estava seguro que os seus
argumentos levariam a melhor sobre a minoria prafrentista do seu
clã elefantino.
A Assembleia Geral da Real Manada realizou-se à beira
rio, num anfiteatro natural com abundante capim e bastas árvores.
Representando a cultura tradicional e a manutenção
do "status quo", o Elefante Chefe, bem escovado, luzidio
e engravatado de altas condecorações, discursou
longamente, citando com sagacidade magistral autores clássicos
e modernos, com tromba e sem ela. Depois de quase duas horas,
sempre pôs ponto final. Os aplausos seguiram-se vibrantes,
embora certos observadores ficaram duvidar se tanto bater de palmas
era em louvor das ideias defendidas ou de regozijo por, ter acabado
o interminável discurso.
Da parte da tarde, pensando a organização que
o tempo de sesta ia provocar sono e enfado comum, deu a palavra
ao "Fórum dos Doutores em Sonho" (como lhe chamava
ironicamente), a fim de que expusessem as suas ideias, se é
que tinham alguma. Com espanto geral, ninguém subiu à
tribuna para discursar.Os risos passeavam-se pelas trombas da
velha guarda vitoriosa por falta de porta-voz que fizesse um discurso
convincente de lógica insofismável. Eis senão
quando um grupo de elefantes entra em palco: retira a estante
dos discursos e coloca no centro uma velha máquina impressora
com um computador e uma parabólica em cima. Por detrás
deste quadro, dois elefantes passeavam um dístico que unia
as suas trombas, com a scguinte legenda "Há que passar
de Museu a Musa!", Outro par, formado por uma veneranda elefanta
e sua criaturazinha recém-nascida, ostentava um cartaz.
"Dá futuro ao passado!", Num segundo quadro,
apareciam quatro elefantes, de várias raças e cores,
numa vídeo-conferência, cada um falando do seu continente,
usando para tal as suas incomensoráveis orelhas, dispostas
em forma de antena parabólica. Como legenda apareciam as
palavras de ordem:"Faz-te cidadão do universo. Tira
o passaporte da comunicação global!"...
Vários outros "sketches" disseram muito com
poucas palavras e muita imagem. Em 20 minutos ficou feito o discurso
dos simbolos, em contraposição a duas horas de,
enfadonho palavreado.
Em abono da verdade, se deve dizer que muitos elefantes,
com acentuada trombas, abandonaram assembleia em sinal ostensivo
de protesto. Mas tem que se confessar também que muitos
se fizeram sócios do "Fórum Aldeia Global -O
Novo Elefante Audíovísual". Com espanto geral,
o próprio Dom Gutemberg se inscreveu numa Escola de Condução
das estradas informáticas e iniciou o curso de formação
permanente sobre "Como dar cartas no correio internético".
os colegas rebaptizaram o elefante chefe com o nome de Mr. Bill
Gates. E o certo é que por travesseiro passou a usar um
computador portátil multi-funções.
Manuel Morujão, SJ.